quinta-feira, março 23, 2006

Palavras de um sábio...

Crónica de um militante desiludido
É sempre doloroso confessar a desilusão que por vezes se sente com o partido político a que se aderiu livremente, com que se sonhou transformar o mundo, em que se teceram camaradagens e cumplicidades, e em nome de quem, tantas vezes se terçou armas.
A consolação reside contudo no facto de que o desconforto que sinto não é ideológico, nem tão pouco com o PS no seu todo, é, isso sim, com a forma como é realizada a actividade partidária e como é encarada a acção política a nível local.
É que é difícil entender e aceitar o processo de decadência e de irrelevância que o PS vem sofrendo em Coimbra, no começo desta primeira década do século XXI depois daquilo que foi e que representou no concelho na anterior década de noventa. Muitas são as análises e as razões apontadas e até há quem negue esta evidência que os últimos resultados eleitorais de forma clara evidenciaram.
Várias serão também as soluções para ultrapassar a crise que se sente e que para alguns não terá solução nos tempos mais próximos, porque sentem um autismo bloqueador que quanto mais sente perder terreno mais se fecha e se entrincheira no apelo a uma unidade fictícia, eminentemente clientelar.
O desconforto não é pois ideológico ou de princípios é de práticas e de atitudes, que comprometem aquilo que a sua Declaração de Princípios afirma e que levam a que o PS Coimbra não seja visto como uma mais valia no contexto nacional do partido. Em Coimbra, como os resultados eleitorais têm demonstrado, o PS alimenta-se do sucesso nacional e não contribui, como seria de esperar, para esse mesmo sucesso, antes pelo contrário.
É hoje óbvio que o PS em Coimbra não tem capacidade orgânica de catalizar nem de exprimir ideias, nem de contribuir para o debate dos problemas locais e nacionais que emergem cada dia com mais força.
Mais, tem demonstrado uma enorme incapacidade de percepção de que a verdadeira força radica na diversidade e no debate franco de militantes entre si e com a sociedade e não no seguidismo amorfo e acrítico que levam a um partido vegetativo e inconsequente.
Chegou ao extremo de se ter deixado acorrentar, na política autárquica local, a uma maioria de direita que, para além de o ter derrotado nas eleições, o exibe como troféu e aval das suas políticas.
Por outro lado, sabe-se que os partidos nas democracias representativas têm uma função importante que é a de escolher candidatos. Mas os partidos não podem reduzir-se a isso, nem fazê-lo de uma forma leviana. Escolher candidatos, mais do que função é uma enorme responsabilidade, cada vez mais importante e exigente. É, aliás, evidente que os cidadãos valorizam cada vez mais a integridade, a competência e a coerência dos candidatos.
Ora, se somarmos a um fechamento e a uma ausência de debate uma escolha de candidatos feita na base de fidelidades pessoais e não de ideias nem de projectos, temos um quadro sombrio que os cidadãos rejeitam e que determinou, por exemplo, o último fracasso eleitoral autárquico, em que é bom ter presente foram derrotados claramente pelos eleitores e simultaneamente, presidente da distrital e presidente da concelhia. Se dou à estampa esta minha desilusão, que sei compartilhada por muitos outros militantes, é porque estando num tempo de eleições internas e de escolhas é importante aproveitar esse momento para reflectir maduramente e decidir em consciência.
É forçoso acabar no PS em Coimbra com este estado de coisas e com o permanente balanceamento entre a regência e a orfandade, assumindo claramente que o PS é um partido plural, coeso e fraterno, aberto à comunicação permanente com as diferentes organizações e correntes de opinião que fazem a riqueza da sociedade civil, e assente na intervenção social e cívica dos seus membros, militantes e simpatizantes, cidadãos livres e activos unidos pela ampla plataforma política da democracia e do socialismo democrático.
João Silva

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