domingo, março 05, 2006

O PS no seu labirinto



1As recentes eleições presidenciais deixaram ao PS dois novos problemas. O seu Governo vai lidar com um Presidente da República oriundo da direita e uma grande parte do seu eleitorado não votou no candidato por si apoiado. O PS está assim a descobrir-se dentro de um verdadeiro labirinto, donde só sairá se for capaz de se reinventar. De facto, não pode continuar a ser uma simples rede de comités eleitorais, articulada com um conjunto de deputados e com uma legião desorganizada de autarcas.

É neste contexto que se deve situar o que ocorreu nas recentes eleições presidenciais. Encarado no seu conjunto, esse processo eleitoral é sintoma de uma crise de confiança do eleitorado socialista no respectivo partido e da sua crescente volatilidade. Assim, é imperativo que o Partido Socialista assuma todas as suas actuais insuficiências e limitações, para poder iniciar o difícil caminho da sua superação.

2. O próximo Congresso do PS terá que ser, por isso, um momento importante de um processo de transformação. Há dois caminhos a percorrer, simultaneamente.

O primeiro deve visar três objectivos: escolha directa pelos militantes dos candidatos do PS às várias eleições; rigorosa igualdade de oportunidades nas eleições internas; impedimento da utilização do partido para alcançar vantagens em actividades económicas e transparência da simultaneidade de protagonismos nos tabuleiros político-partidário e empresarial.

A escolha directa dos candidatos pelos militantes é um índice incontornável da qualidade da sua democracia interna. O PS não pode ficar à espera de que seja a lei a impor-lhe esse caminho. Deve ousar assumir-se como pioneiro, envolvendo nesse processo, quer os simpatizantes, quer os eleitores declarados do PS.

Seria absurdo deixar fora dessa requalificação democrática os actos eleitorais internos. De facto, não é admissível manter as actuais desigualdades e distorções. É, por exemplo, indispensável que todas as candidaturas internas sejam financiadas pelo partido e só pelo partido. O facto de se ter dinheiro ou a arte de o recolher não podem continuar a ser um factor de desigualdade nas disputas internas.

Também não é admissível a promiscuidade entre a política e os negócios. Quem ocupar posições de relevo no universo das grandes empresas privadas, ou tiver actividades de intermediação em negócios, não deve ocupar lugares de direcção no partido. E os dirigentes nacionais e distritais, bem como os presidentes das concelhias, devem tornar públicos os seus interesses, em termos equivalentes àqueles a que estão sujeitos os deputados e os membros do Governo. A independência do poder político em face do poder económico é um princípio constitucional que não pode deter-se à porta do Partido Socialista.

Um outro caminho tenderá a dar frutos mais demorados. Um dos seus objectivos deve ser o de trazer a cultura para dentro do PS, de modo a instituir no seu interior hábitos de fruição e criatividade culturais que amadureçam e despertem os militantes. Mas a cultura só poderá ser um estímulo para o espírito crítico dos socialistas se integrar uma visão do mundo liberta da ideologia apologética dominante. Para isso, é indispensável uma capacidade própria de recolha e aproveitamento crítico da informação económica, social, cultural e política.

3. A rede dos interesses pequenos e das ambições paroquiais quer reter o PS no seu labirinto. Mas não é forçoso que assim aconteça. Há um decisivo protagonista que pode agitar estas águas mortas: o secretário-geral do Partido Socialista. Ele tem a força política, a legitimidade e a oportunidade para desde já abrir as portas ao futuro.

Para começar, pode dar centralidade ao Congresso Nacional como alavanca de renovação, libertando-se da hipoteca das pequenas quintas partidárias, dirigida a perpetuar no plano concelhio e distrital o domínio dos pequenos poderes que atrofiam o PS.

Pode incentivar, desde já, um diálogo aberto entre as diversas perspectivas que reflectem a pluralidade interna do PS, promovendo o confronto de ideias e desconsiderando sem ambiguidades os pequenos feudalismos que aprisionaram a alma do PS.

O PS não pode continuar no seu labirinto. Por isso, nem pode ficar paralisado pela inércia das rotinas, nem deixar-se possuir por qualquer sofreguidão na procura de uma saída. Mas principalmente não pode cair na tentação de fazer de conta que anda para não sair do mesmo sítio.

Rui Namorado - Militante do Ps e professor Universitário
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2 comentários:

Anarca disse...

Vocês são melhores que eu.

A fotografia não é do Hespanha ?

Anónimo disse...

Não. é do rui apesar das semelhanças